quinta-feira, 19 de junho de 2008

meu deserto

pela fresta da porta vejo o horizonte
reto preciso certo exato
e lá um cisco pequenino

minhas promessas de felicidade

entre nós estendessem tantos quilometros ainda nem percorridos

um oásis nesta aridez interna?
miragens diante de areial tão seco?
minha única esperança de vida neste caminho morto?

estou nas noites de insônia
onde as horas congelam no frio repentino de desertos do mundo todo
neste vento de lamúrias tristes
anunciando as incertezas de promessas
imprecisas duvidosas
como este caminho que se desvia a cada instante

quinta-feira, 12 de junho de 2008

menina com flor no cabelo

entre tantos rostos enxergo a menina com flor no cabelo
constrangedoramente íntima, extremamente familiar

seria eu?

teria carregado toda esta herança genética?

ou seria apenas saudades dos dias claros de uma infância longínqua
retratos cheios de sorrisos verdadeiros
de quem assiste o tempo passar devagar
quase com preguiça
pelas manhãs de tantos quintais ensolarados

terça-feira, 10 de junho de 2008

coleção de rostos

o tempo implacável amarelando manchando cicatrizando
meu reflexo contido em camafeus centenários

uma luz amarelada de um abajur comprido faz tudo parecer familiar quente aconchegante
vejo nas paredes quadros com molduras douradas pesadas cobertas por uma fina camada de pó

estou numa coleção de rostos muito antigos
escuto conversas e risos distantes indecifráveis
são irmãs posando lado a lado

minhas roupas cheiram a "guardado"
meus brincos pesam nas orelhas com todo peso existente em uma linhagem

domingo, 8 de junho de 2008

deserto noturno

acordo com o frescor no rosto,
uma brisa suave invade cortante o mormaço.
vinda do andar de cima, a persigo apoiada num corrimão coberto de limo,
os sons agonizantes diluindo-se,
o calor sendo esquecido
e todo o peso opressivo do corpo evapora a cada degrau que cuidadosamente subo.

da brisa fez se um vento
gélido e furioso
que embaraça cabelos em cílios
tão frio que penetra por dentro dos meus ossos


neste silêncio profundo me pergunto se não estou, na verdade, surda

Não.

estou sozinha

escuto estalos secos quase um brinde
é o tempo corroendo os espelhos

sexta-feira, 6 de junho de 2008

na floresta da noite



meus passos são hesitantes tropeços bêbados entre as raízes grossas e antigas das árvores milenares desta floresta que, pela noite e madrugada, cresce dentro de minha casa

não enxergo as escadas longas que me levariam ao quarto ou qualquer móvel da sala, emerge a terra úmida cobrindo os tacos de madeira do piso

são farfalhar de folhas urros cantos respirações rugidos assobios de ventos pios zumbidos passos neste barulho insuportável que habita cada instante do falso silêncio de uma mata

pesa sobre mim o ar denso quente úmido e estagnado das florestas tropicais

caio aturdida mole confusa sobre o musgo macio e perfumado onde antes havia um tapete